Texto: Ísis Limão
Donas
de casa, crianças, adolescentes e mães, são elas que dão vida às personagens do
Maracatu Coração Nazarena. Foi em 2005 que se viu pela primeira vez um maracatu
de baque solto formado só por mulheres. Ao seu modo, elas vêm mostrando seu
potencial cultural, seus versos falam sobre mulher, natureza, violência de
gênero, mães ou fatos de impacto social.
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Foto: Ísis Limão -Cabocla de lança por opção,
Marinalva encanta o público. |
Resultado
de uma ideia da coordenadora da Associação das Mulheres de Nazaré da Mata
(AMUNAM) Eliane Rodrigues, o Maracatu Coração Nazareno deu oportunidade as
mulheres que tinham curiosidade em saber como era ser um personagem (até então masculino),
tal como o caboclo de lança, o reamar ou o mestre do maracatu. Como é o caso da cabocla e coordenadora do
maracatu Marinalva, que também é a mais experiente do grupo. Aos 49 anos, a
esposa e mãe se sente feliz por poder carregar os 16 kg de sua roupa de
cabocla, onde se apresenta. “Eu estou com um problema de coluna que vou ter que
parar de brincar”, comenta a cabocla. “Já surgiu a oportunidade de brincar de
rei, mas é muito parado, eu gosto mesmo é de brincar de cabocla”, continua.
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Foto: Ísis Limão - A Mestra do Maracatu Coração Nazareno
Gilvanilda, a mestra Gil |
Quem
pulsa e embala esse coração é Gilvanilda, 42, mais conhecida como Mestra Gil. A
mãe de 5 filhos que é casada com um também mestre de maracatu, Zé Duda, conta
que antes de ser a mestra do Coração Nazareno brincava como baiana no Maracatu
Leão Formoso, ao lado de sua mãe. Mas seu sonho é vestir outra roupa: “Eu
queria ser cabocla. Me empurraram pra ser bandeirista, no primeiro ano aqui no
maracatu, e no outro pra ser a mestra”, diz. Depois de sua primeira
apresentação como bandeirista, a ouviram cantando um verso durante o banho e
decidiram que ela seria a nova mestra. “Eu tava no banho e cantei um improviso
‘E a AMUNAM na cultura, ninguém quebra o seu tabu. Que Eliane Rodrigues fez um
lindo maracatu. ’ Pronto, quando eu saí do banho tava todo mundo gritando na
porta e dizendo pra eu ser a mestra”, comenta Gil, que confessa ter ficado
assustada no começo. “A primeira vez que eu brinquei como mestra, eu chorava e
tremia mais do que vara verde”, conta aos risos.
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Foto: Ísis Limão - Amor que vem de família,
as irmãs Rosália (dir.) e Rosinete (esq.). |
O
maracatu de baque solto, para algumas dessas mulheres, é como se fosse uma
herança de família. As irmãs Rosinete Maria, 25, mais conhecida como Manguito,
e Rosália, 29, conhecida como Preta, poderiam montar seu próprio maracatu se
juntasse todos os seus familiares que brincam. Elas entraram nessa brincadeira
através de seu avô que tinha paixão pela brincadeira. Mas também tem sobrinhas,
cunhados e primos, todos envolvidos com a cultura da terra. “Meu avô sofreu um
acidente brincando, daí meu pai ficou sem vontade mais de sair com o maracatu.
Aí um primo meu me chamou pra dançar e eu fui, porque ficava curiosa para saber
como era aquela roupa rodada da baiana. Minha mãe dizia que era um balaio e eu
dizia que ainda ia brincar pra saber o que era. Quando eu comecei, descobri que
era um arame que dava aquele formato”, lembra Rosália. Sua irmã Rosinete é a
reamar do maracatu: “Faz 10 anos que eu brinco. Já brinquei no terno (a banda
do maracatu), já fui contra-mestra, cabocla e agora eu brinco de reamar, e foi
o que eu mais gostei”, diz.
Essas mulheres sabem a importância cultural do
que fazem, mas continuam humildes e fazendo porque realmente gostam de
maracatu. Passam um ano esperando entusiasmadamente pra sair nas ruas e mostrar
o colorido vivo de suas roupas, sorrisos e a alegria de representar a arte da
sua terra.
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