sexta-feira, 28 de setembro de 2012

OS ENCANTOS DO MARACATU CORAÇÃO NAZARENO


Texto: Ísis Limão

Donas de casa, crianças, adolescentes e mães, são elas que dão vida às personagens do Maracatu Coração Nazarena. Foi em 2005 que se viu pela primeira vez um maracatu de baque solto formado só por mulheres. Ao seu modo, elas vêm mostrando seu potencial cultural, seus versos falam sobre mulher, natureza, violência de gênero, mães ou fatos de impacto social.

Foto: Ísis Limão -Cabocla de lança por opção,
Marinalva encanta o público.
Resultado de uma ideia da coordenadora da Associação das Mulheres de Nazaré da Mata (AMUNAM) Eliane Rodrigues, o Maracatu Coração Nazareno deu oportunidade as mulheres que tinham curiosidade em saber como era ser um personagem (até então masculino), tal como o caboclo de lança, o reamar ou o mestre do maracatu.  Como é o caso da cabocla e coordenadora do maracatu Marinalva, que também é a mais experiente do grupo. Aos 49 anos, a esposa e mãe se sente feliz por poder carregar os 16 kg de sua roupa de cabocla, onde se apresenta. “Eu estou com um problema de coluna que vou ter que parar de brincar”, comenta a cabocla. “Já surgiu a oportunidade de brincar de rei, mas é muito parado, eu gosto mesmo é de brincar de cabocla”, continua.

    
     Foto: Ísis Limão - A Mestra do Maracatu Coração Nazareno
Gilvanilda, a mestra Gil
Quem pulsa e embala esse coração é Gilvanilda, 42, mais conhecida como Mestra Gil. A mãe de 5 filhos que é casada com um também mestre de maracatu, Zé Duda, conta que antes de ser a mestra do Coração Nazareno brincava como baiana no Maracatu Leão Formoso, ao lado de sua mãe. Mas seu sonho é vestir outra roupa: “Eu queria ser cabocla. Me empurraram pra ser bandeirista, no primeiro ano aqui no maracatu, e no outro pra ser a mestra”, diz. Depois de sua primeira apresentação como bandeirista, a ouviram cantando um verso durante o banho e decidiram que ela seria a nova mestra. “Eu tava no banho e cantei um improviso ‘E a AMUNAM na cultura, ninguém quebra o seu tabu. Que Eliane Rodrigues fez um lindo maracatu. ’ Pronto, quando eu saí do banho tava todo mundo gritando na porta e dizendo pra eu ser a mestra”, comenta Gil, que confessa ter ficado assustada no começo. “A primeira vez que eu brinquei como mestra, eu chorava e tremia mais do que vara verde”, conta aos risos.    
     
Foto: Ísis Limão - Amor que vem de família, 
as irmãs Rosália (dir.) e Rosinete (esq.). 
O maracatu de baque solto, para algumas dessas mulheres, é como se fosse uma herança de família. As irmãs Rosinete Maria, 25, mais conhecida como Manguito, e Rosália, 29, conhecida como Preta, poderiam montar seu próprio maracatu se juntasse todos os seus familiares que brincam. Elas entraram nessa brincadeira através de seu avô que tinha paixão pela brincadeira. Mas também tem sobrinhas, cunhados e primos, todos envolvidos com a cultura da terra. “Meu avô sofreu um acidente brincando, daí meu pai ficou sem vontade mais de sair com o maracatu. Aí um primo meu me chamou pra dançar e eu fui, porque ficava curiosa para saber como era aquela roupa rodada da baiana. Minha mãe dizia que era um balaio e eu dizia que ainda ia brincar pra saber o que era. Quando eu comecei, descobri que era um arame que dava aquele formato”, lembra Rosália. Sua irmã Rosinete é a reamar do maracatu: “Faz 10 anos que eu brinco. Já brinquei no terno (a banda do maracatu), já fui contra-mestra, cabocla e agora eu brinco de reamar, e foi o que eu mais gostei”, diz.  


Essas mulheres sabem a importância cultural do que fazem, mas continuam humildes e fazendo porque realmente gostam de maracatu. Passam um ano esperando entusiasmadamente pra sair nas ruas e mostrar o colorido vivo de suas roupas, sorrisos e a alegria de representar a arte da sua terra.

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